Câmara debate situação da saúde da mulher pescadora em Maceió

segunda, 29 de novembro de 2021 às 12h09

Proposição foi proposta pelo vereador Dr. Valmir Gomes (PT)

 
A situação da "Saúde da Mulher Pescadora" foi discutida em audiência pública proposta pelo vereador Dr. Valmir Gomes (PT), na manhã desta segunda-feira (29). Representantes de colônias de pescadores, pesquisadores e profissionais de saúde estiveram presentes. O Governo do Estado foi representado pela secretária da Mulher e Direitos Humanos, Maria Silva.  
 
"Fizemos o convite para ambas as secretarias: municipal e estadual. Mas, infelizmente não mandaram representantes. É fundamental que como poder a Câmara fique atenta para essas demandas que envolvem as mulheres pescadoras e os homens também. Acredito também que a partir do que será discutido aqui poderemos pensar em ações que fomentem políticas públicas", destacou o Dr. Valmir. 
 
 
O pesquisador e mestrando da Ufal, Johnny Antônio da Silva Santos, fez um relato com detalhes de um levantamento feito com o apoio da socióloga Ana Paula de Oliveira Santos.
 
Os dados são referentes a atividade das mulheres com a coleta do marisco, do sururu, pesca de arrasto e com cercos nas lagoas. Segundo explicou os problemas relacionados à saúde dessas trabalhadoras têm relação com com as condições de trabalho e, também, os esforço físico que é empreendido. Isto porque a maioria ficam até 12h ligadas a atividade, desde a pesca, distribuição e até a comercialização. Tem sido muito comum as mulheres apresentarem Lesões por Esforço Repetitivo (LER).
 
"Sendo assim elas têm riscos por conta do esforço físico por conta do excesso de peso, riscos biológicos e as condições climáticas (sol e chuva). Há uma questão para essas mulheres que é a atividade de limpeza dos mariscos. É algo demorado, às vezes feio em pé, ou sentado e advém disso os problemas de coluna, dores nas pernas e varizes. O contato diário também com a lama acarretam em problemas de pele, e a imersão constante na água problemas de útero e ovário. Por conta de uma bactéria no Rio Santo Antônio muitas tiveram que extrair esses órgãos devido ao contato com a água", revelou João.
 
Ele explicou, ainda, que muitas mulheres pescadoras que foram acometidas pela Covid-19 estão com sequelas físicas que as impede de realizar a atividade primária que é a da pesca e a retirada do marisco. Elas reclama de dores pelo corpo e uma indisposição decorrente da ação do vírus. Uma outra revelação feita é que as que usam tarrafa, em geral ficam em contato com o chumbo na boca e isso também provoca contaminação química. 
 
A secretária Maria Silva disse que o papel da Semudh é de articulação com o município. Por isso lamentou a ausência de autoridades municipais a audiência. Em sua avaliação os fatos relatados que mostram a exposição das mulheres a riscos precisa ser enfrentada de forma articulada. "Nossas mulheres estão perdendo a vida o útero. E nós estamos vendo aqui com maior dedicação o pessoal da universidade, mas está faltando mais autoridades, principalmente de saúde", disse Maria.
 
De acordo com a Professora da Ufal, Edna Bezerra da Silva, a importância social da atividade não é vista pelos entes públicos com o mínimo de dignidade, já que no caso das famílias que vivem às margens da Lagoa Mundaú a situação é de abandono. 
 
"Temos uma comunidade de 30 mil pessoas com risco e vulnerabilidade sem água e acesso ao saneamento. Eles não tem água para garantia de existência como seres humanos. Eles também têm a violência das facções e a violência do Estado quando a polícia também arrombam portas de famílias pobres. Temos lá um problema grave que é a falta de cobertura de saúde da família", observou.
 
A carência de políticas públicas faz com que as famílias sejam invisibilisadas por conta da pouca regulamentação da atividade profissional e econômica. Segundo a professora as pessoas são resistentes e se organizam para fazer frente a ausência de apoio. 
 
"Uma dessas ações foi a formação dos agentes populares de saúde que serviu para traçar estratégias e combater o coronavírus. Foi importante mas ainda é pouca. Eles também têm a situação de insegurança alimentar porque na pandemia houve uma queda da comercialização do sururu. Muitas pessoas não tiveram acesso ao auxílio emergencial, porque há muitas pessoas que se quer têm certidão de nascimento. Para esses a situação ficou mais séria e precária", destacou Edna. 
 
A pescadora Márcia dos Anjos moradora do pontal contou o drama que vive já que desde 2016 foi diagnosticada com dezenas de doenças de transmissão hídrica. Atualmente, por conta dos problemas de saúde mora com a mãe e não tem nenhum tipo de renda. 
 
"Precisamos que olhem para nós. Vivemos dentro da lagoa e isso não é brinquedo não. Entrar de madrugada com a água gelada e ficar dia e noite ali dentro é algo difícil. Vivemos jogados no lixo, mas não somos lixo não. Somos trabalhadores honestos e precisamos de ajuda. Eu mesmo não conta com nenhuma ajuda, sem acesso a médico e até uma tomografia não consegui fazer. Mas, está vindo as eleições quem sabe consigo", disse Márcia. 
 
A marisqueira Edleuza Maria Santos completou as informações sobre o descaso denunciando que o fato de morar à beira da lagoa a impede de ter atendimento nos postos da rede municipal. A falta de um endereço fixo não cadastrado com CEP faz com que não entre no sistema garantir atendimento. 
 
"Sofremos muito com pouca remuneração pelo nosso trabalho e ainda quando adoecemos passamos a madrugada no posto e quando chega nossa vez na hora de fazer a ficha quando informamos que moramos na favela da lagoa não somos atendidos. Isso é um desrespeito muito grande. Precisamos que olhem para nós. Trabalhamos pesado, gastamos para pagar quem nos ajuda e no final dia falta dinheiro para nós. É triste um filho pedir um biscoito e termos que dizer que não tem porque o trabalho não rendeu o dinheiro que precisamos", desabafou Edleuza. 
 

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